7 de nov de 2010

Os Segredos do Autismo - Uma diferença na mente







Pessoas autistas sofrem geralmente de um grande número de problemas – perturbações
sensoriais, alergias a comida, problemas gastrointestinais, depressão, compulsão
obsessiva, epilepsia subclínica e hiperactividade. Mas existe, segundo acreditam os
investigadores, um defeito central, que é a dificuldade que as pessoas para além do
espectro autista têm em desenvolver uma teoria mental. O psicólogo infantil da
Universidade de Washington Andrew Meltzoff defende que a fase de desenvolvimento
conhecida como os “terríveis dois” ocorre porque as crianças – normais – criam a
hipótese de que os seus pais têm mentes independentes e então, como cientistas,
procuram testá-la.
As crianças dentro do espectro autista, contudo, são cegas à mente; elas parecem pensar
que o que está na sua mente é idêntico ao que está na mente de toda a gente e que o que
elas sentem é o que toda a gente sente. A noção de que outras pessoas – pais, colegas,
professores – podem ter outra visão das coisas, de que podem ter motivos escondidos ou
pensamentos divergentes, não ocorre prontamente.
Meltzoff acredita que esta falta pode ser seguida até ao problema que as crianças
autistas têm em imitar os adultos nas suas vidas. Se um adulto se senta com uma criança
normal de 18 meses e inicia um comportamento interessante – brincar com blocos no
chão, ou fazer caretas – a criança responde normalmente fazendo o mesmo. Crianças
com autismo, contudo, não o fazem, como Meltzoff e a sua colega Geraldine Dawson
mostraram numa série de experiências.
As consequências desta falha podem ser sérias. Nos primeiros anos de vida, a imitação é
uma das ferramentas mais úteis da criança para a aprendizagem. É através da imitação
que as crianças aprendem a dizer as suas primeiras palavras e dominam a rica
linguagem não verbal da postura corporal e expressão facial. Desta forma, diz Meltzoff,
as crianças aprendem que ombros caídos representam tristeza ou exaustão física e que
olhos brilhantes significam alegria. Para pessoas autistas, a capacidade de ler o estado
interno de uma pessoa surge apenas após um longo esforço, e mesmo assim a maior
parte não consegue detectar os sinais subtis que indivíduos normais emitem
inconscientemente.
Ao mesmo tempo, é incorrecto dizer que as pessoas autistas são frias e indiferentes
àqueles que as rodeiam ou, como a sabedoria convencional diz, não possuem a grande
característica pessoal que é a empatia. Em Dezembro passado, quando Pam Barrett se
sentiu emocionada e se desfez em lágrimas, foi Danny, o seu filho mais profundamente
afectado pelo autismo, que correu para o seu lado e a balançou para a frente e para trás
nos seus braços.
Novas descobertas
Outra impressão errada acerca de pessoas com autismo, diz Karen Pierce, uma
neurocientista na Universidade da Califórnia em San Diego, é a noção de que elas não
registam as caras de pessoas próximas como especiais – que, nas palavras de um
importante perito em neurologia, elas vêm a cara da sua mãe como o equivalente a um
copo de papel. É mais o contrário, diz Pierce, que tem resultados de um estudo de
neuroimagem para defender as suas convicções. Na verdade, o centro de actividade na
mente autista, como defendeu numa conferência, é o gyrus fusiforme, uma área do
cérebro que em pessoas normais se especializa no reconhecimento de rostos.
Num estudo de neuroimagem, Pierce refere, o gyrus fusiforme nas pessoas autistas não
reage quando elas eram colocadas em frente a fotografias de desconhecidos, mas
quando eram substituídas pelas fotografias dos pais, toda a área se acendia. Além disso,
esta explosão de actividade não está confinada ao gyrus fusiforme mas também, como
em sujeitos normais, estendida a áreas do cérebro que respondem a acontecimentos
emotivamente fortes. Para Pierce, isto sugere que enquanto bebés, as pessoas autistas
estão aptas a formar fortes laços emocionais, de forma a que o seu afastamento social
posterior parece ser a consequência de uma desorganização cerebral que piora à medida
que o desenvolvimento continua.
Os estudos descobriram que as pessoas autistas não analisam a informação como as
outras o fazem. O psicólogo da Universidade de Illinois John Sweeney, por exemplo,
descobriu que a actividade no córtex pré-frontal e parietal é muito menor em adultos
autistas a quem é pedido realizar uma simples tarefa envolvendo memória espacial.
Estas áreas do cérebro, refere, são essenciais no planeamento e na resolução de
problemas, e entre as suas funções está manter um mapa espacial dinamicamente
modificável numa área de memória funcional. Sweeney defende que o fraco
desempenho dos indivíduos autistas na tarefa que lhes foi posta – manter um objecto no
local de uma luz intermitente – sugere que podem ter problemas na renovação dessa
memória ou aceder a ela em tempo real.
Para Nancy Minshew, uma colaboradora de Sweeney e neurologista na Universidade de
Pittsburgh, as imagens que Sweeney produziu de mentes autistas em acção são
infinitamente evocativas. Elas sugerem que ligações essenciais entre áreas chave do
cérebro nunca foram feitas ou não funcionam ao nível adequado. “Quando olhamos para
estas imagens, podemos ver o que não está lá”, diz.


Leia este texto na íntegra:

Colaboração com o blog de Liê Ribeiro.
FONTE: APADEM

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