12 de dez de 2010

“Rejeitar o comportamento desadequado, mas nunca o aluno”

Rita Antunes, Psicóloga do Desenvolvimento na Clínica Cuf de Torres Vedras, explica quais as opções de abordagem com os alunos envolvidos em situações de violência na escola. "A abordagem mais promissora e com possibilidade de obter melhores resultados a longo prazo e com melhor rácio custo/benefício é uma Intervenção de carácter integrativo e compreensivo", explica.



EdF: Que tipo de violência é que costuma haver nas escolas?
A Escola, enquanto contexto privilegiado por excelência para a aprendizagem e, também, para o estabelecimento de relações interpessoais, lida diariamente com situações potencialmente conflituosas.
Como tal, podem ocorrer as mais diversas situações que dão origem a vários tipos de violência: verbal, física, cibernáutica (através de trocas de mensagens e/ou palavras em chats, blogs ou por e-mails com conteúdos potencialmente agressivos e/ou ameaçadores) ou até mesmo sexual.

Existem também outros tipos de violência mais passiva, quer entre pares quer contra os próprios professores. São frequentes as situações em que se denigre imagem de colegas escrevendo nas portas da casa-de-banho comentários menos próprios, falar mal de colegas nas suas costas, competição nas notas e estratégias desadequadas (intitular os colegas com boas notas de “marrões”; estragar os materiais escolares dos outros) que os alunos adoptam nessa competição. A violência dos alunos contra professores tem sido também cada vez mais abordada, sobretudo aquela que ocorre dentro da sala de aulas e que interfere com o decorrer das aulas e actos de vingança que podem ocorrer na sequência de avaliações escolares negativas (tal como furar pneus do carro do professor).

EdF: Quem são os mais afectados?
A violência entre pares é mais frequente durante 2º ciclo de escolaridade e/ou no início do 3º ciclo (dos 11 aos 14 anos de idade). Verifica-se também maior frequência de violência, nomeadamente física, entre os rapazes do que entre as raparigas. Podem ocorrer também casos de violência entre namorados, sendo mais comum nos alunos do 3º ciclo de escolaridade e do secundário.

EdF: Que factores é que contribuem para que uma criança/jovem seja vítima de violência por parte dos colegas?
Existem algumas características que, em situações críticas, poderão aumentar a probabilidade de uma criança/jovem ser vítima de violência, tais como apresentar uma baixa auto-estima e auto-confiança, um frágil auto-conceito, com tendência para o isolamento social e/ou timidez excessiva, dificuldades e/ou ausência de competências sociais (não conseguir expressar com confiança os seus sentimentos e as suas vontades). As crianças/jovens com alguma característica diferente das restantes (como, por exemplo, a cor de cabelo, a maneira de andar, de falar, de vestir), o facto de terem um aspecto mais frágil e/ou sensível bem como níveis elevados de ansiedade, medos ou fobias várias, constituem também factores relevantes.

EdF: E que factores característicos existem relativamente ao agressor?
Da mesma forma, existem inúmeros factores e/ou características que são observados ao nível do perfil do agressor, designado de bully nos casos de bullying, e que aumentam a probabilidade de sucederem situações disruptivas. Algumas dessas características são a pouca empatia que sentem para com os outros, a reduzida capacidade para se colocarem no lugar do outro, terem pouco auto-controlo, tendências impulsivas ou falta de inibição contra as suas tendências agressivas, assumirem uma atitude e crenças erradas relativas à violência, atribuírem a responsabilidade dos seus próprios comportamentos agressivos aos outros. Por outro lado, o contexto onde vivem e/ou em que são educados constitui um forte factor de propensão e de reforço deste tipo de comportamentos nomeadamente, se as estratégias educativas adoptadas pelas figuras parentais forem desadequadas e/ou pouco objectivas e se não tiverem interiorizadas as noções de limite e respeito pelo espaço do(s) outro(s).

Todos estes factores são fundamentais e devem ser tidos em consideração por todos os pais/educadores/professores e profissionais de saúde, uma vez que diversas investigações mostram que crianças/jovens agressivos têm grande probabilidade de se tornarem adultos com comportamentos anti-sociais e/ou violentos.

EdF: Que tipo de intervenção deve existir tanto para quem é vítima como para o agressor?
Um dos aspectos mais importantes a trabalhar no caso das vítimas é trabalhar a sua auto-estima, os seus níveis de auto-confiança e auto-conceito e as competências relacionais e sociais. As suas capacidades de autonomia e de auto-afirmação e o saber que podem falar com adultos (que podem confiar neles)
são áreas de intervenção de igual importância.

Deve privilegiar-se também o trabalho com pais e professores/educadores para uma melhor preparação e atenção a possíveis sinais de bullying.

Na Escola devem privilegiar-se, sobretudo as dinâmicas de grupo dentro das turmas para promover a coesão do grupo, bem como a atribuição de papéis/tarefas de referência antecipando que a criança/jovem conseguirá alcançar os resultados desejados e investir também em actividades de ocupação de tempos livres em que possam obter sucesso e criar novas relações positivas (teatro, dança, pintura, etc.).

No caso dos agressores é extremamente importante incidir sobre as questões relacionadas com a empatia, trabalhando a capacidade de se colocar no lugar do outro e recorrendo a diversas metodologias como jogos pedagógicos que favorecem as interacções positivas e os trabalhos de grupo para potenciar a criação de um espírito de grupo.

Outra área igualmente importante está relacionada com a incapacidade dos agressores ao nível da gestão de stress e das dificuldades que demonstram ao serem confrontados com um “não” ou com situações frustrantes (situações em que não consigam alcançar os seus objectivos e em que acabam por perder facilmente o auto-controlo).

Em termos de intervenção, devem por isso criar-se momentos que favoreçam “o pensar antes de agir”, a capacidade de prever as consequências e o impacto que as suas atitudes podem ter nos outros.

Gostaria ainda de fazer a salvaguarda para o caso dos bullies, uma vez que neste tipo de agressividade é vulgar que o agressor se sinta importante, enaltecido e seja vulgarmente chamado e considerado como o “Rei da Escola”. Como tal, uma das formas de intervenção é fazer com que essas crianças/jovens se sintam igualmente importantes e enaltecidas, mas com base em tarefas positivas e socialmente ajustadas. O bully/agressor tornar-se no responsável pela realização do desfile de carnaval da escola constitui um bom exemplo de tarefa que potencia a promoção dos comportamentos adequados e positivos.

EdF: Que tipo de intervenção é que deve existir nas escolas para se evitar a violência entre pares?
A abordagem mais promissora e com possibilidade de obter melhores resultados a longo prazo e com melhor rácio custo/benefício é uma Intervenção de carácter integrativo e compreensivo, onde devem estar envolvidos nos diferentes momentos e nos diferentes níveis de intervenção: a(s) vítima(s); o(s) agressor(es); pais/figuras parentais; educadores/professores.

Neste âmbito e numa perspectiva não só de Intervenção como também e fundamentalmente de Prevenção, devem ser trabalhadas as áreas já referidas. Por exemplo, saber lidar com a raiva/frustração, promover a consciência/conhecimento emocional, a capacidade de descentração/compreensão da perspectiva do outro, a resolução de problemas sociais, as estratégias de negociação com os pares para lidar com conflitos, a capacidade de estabelecer relações positivas com os pares, evitando os grupos desviantes e o estabelecimento de metas e objectivos alcançáveis.

EdF: Que conselhos gostaria de deixar aos professores que têm de lidar com estas situações de violência?
Os professores, depois das figuras parentais, são as figuras de referência para as crianças/jovens e como tal funcionam como um modelo a seguir.

Como tal, podem adoptar diversas estratégias funcionais em contexto de sala de aula para prevenir a replicação de comportamentos disruptivos: uso de vídeos (com histórias que remetam para situações de agressividade) e promover o debate do filme no final, informar sobre comportamentos típicos de bullying, analisar histórias/estudo de casos (através de cartões com histórias ou de dramatizações de situações de bullying), jogos pedagógicos para promover a coesão da turma, entre outras.

A articulação com o serviço de psicologia da escola é também de extrema importância. O caso das escolas que não têm esse serviço poderão realizar os esforços necessários para o introduzir como, por exemplo, através da associação de pais e/ou de uma parceria estabelecida com as autarquias de forma a conseguirem garantir a disponibilidade deste recurso. Esta questão tem particular ênfase uma vez que existem áreas/ estratégias de intervenção muito específicas ao nível da psicologia nas quais só um profissional devidamente formado e credenciado pela Ordem dos Psicólogos poderá responder e intervir.Por fim e seja qual for a situação e/ou contexto, acima de tudo devemos relembrar sempre que se rejeita o comportamento desadequado, mas nunca o aluno.

In: Ensino do Futuro

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